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Artigo: ESTRATÉGIA E FILOSOFIA DA ADMINISTRAÇÃO
Área: Humanas
Autor(es): Roberto Bazanini | | | | | | | | |
 
ESTRATÉGIA E FILOSOFIA DA ADMINISTRAÇÃO

Os estudos sobre o comportamento dos administradores das organizações e seus reflexos sobre a sociedade, no início do terceiro milênio, vem despertando cada vez mais interesse em todo o mundo.
Desde 1993, a Filosofia é uma disciplina recomendada nos cursos de Administração em todo o Brasil. Porém, infelizmente, os professores e alunos não encontram material didático disponível, que pense o ensino da Filosofia voltado para um futuro administrador de empresas.
O pensamento filosófico e a atividade de gerenciar negócios, aparentemente, parecem incompatíveis, disciplinas estranhas, cujo entrelaçamento não oferece nada de útil.
Em decorrência do estereótipo criado que somente disciplinas consideradas objetivas como Matemática e Contabilidade são essenciais para gerir empreendimentos, frequentemente, os alunos ingressantes nos cursos de administração concebem o conteúdo filosófico como “enrolação”, “perfumaria”, “coisa sem praticidade”, “coisa de louco”.
Ledo engano! A Filosofia originalmente era a ciência mãe, matriz da qual surgiram as demais ciências e é preciso ter em mente que, desde o surgimento dos questionamentos dos primeiros que filosofaram, o intuito estava em entender as coisas que nos rodeiam, pois, desde os ensinamentos de Sócrates, no século IV AC, uma das máximas do pensamento filosófico adverte que nada do que é humano pode ser estranho ao exercício da reflexão.

Nada do que é humano pode ser estranho à filosofia
Partindo-se da premissa que nada do que é humano possa ser estranho à discussão filosófica, no século IV. a.c,, Xenofonte, no livro IV- Capítulo VII dos Memoráveis nos fornece instrutivos exemplos dessa concepção ao relatar alguns dos ensinamentos de Sócrates:

... Ensinava-lhes também até que ponto deve o homem versar-se em cada ciência. Assim dizia dever aprender a geometria, o necessário em caso de precisão, medir-se exatamente um terreno que se queira comprar vender, dirigir ou lavrar. O que é tão fácil – acrescentava – que por pouco que se dedique à agrimensura pode se conhecer a grandeza da terra e a maneira de medi-la... Recomendava aprender-se de astronomia o bastante para viajando-se por terra, por mar ou, estando-se de guarda, reconhecer as divisões da noite, mês e ano e ter pontos de referência para tudo o que faça na noite, mês ou ano. Acrescentava ser fácil aprender esses pontos com os caçadores noturnos, pilotos e todos aqueles que tem interesse em sabê-los.

Parafraseando os ensinamentos de Sócrates, poderíamos acrescentar que, contemporaneamente, é preciso analisar a inteligência, a astúcia e coragem dos empreendedores contemporâneos presentes nas mais diferentes teorias da administração, como propôs na primeira metade do século XX, o pensador e educador norte americano John Dewey, ao enfatizar quão bom seria se a filosofia estivesse voltada mais para os engenheiros e advogados do que simplesmente se voltar única e exclusivamente para a formação de padres.
O livro Visão Filosófica das Estratégias em Administração concebe que, em nossa contemporaneidade, a filosofia se encontra presente em todos os campos de atividade e a dimensão humana do produzir se constitui em importante aspecto da realização do indivíduo em sua existência cotidiana.
Propõe a alfabetização metodológica como requisito inicial indispensável para analisar a pertinência da filosofia na gestão dos negócios com base em dois paradigmas: o humanismo-radical e o construtivismo-funcional.
E, como o processo de conhecimento envolve atributos como INTELIGÊNCIA, AFEIÇÃO AO CONHECIMENTO, CORAGEM. Especificamente em administração, além dos atributos mencionados, ASTÚCIA e, para os mais humanistas, BONDADE.
Quadro Comparativo de Paradigmas
Paradigma Humanista-Radical
▪ O homem acima de tudo
▪ Concepção Colaborativa
▪ Relação ganha-ganha
Atributos:
▪ Inteligência
▪ Afeição ao Conhecimento
▪ Coragem
▪ BONDADE
Finalidade:
A felicidade Paradigma Construtivista-Funcional
▪ O sistema social acima de tudo
▪ Concepção Competitiva
▪ Relação ganha-perde
Atributos:
▪ Inteligência
▪ Afeição ao conhecimento
▪ Coragem
▪ ASTÚCIA
Finalidade:
O sucesso

*Bondade proposta por aqueles que descobriram que cada um de nós faz parte de um todo e parte daqueles bens que alcançamos devemos compartilhar com o próximo.  Princípio da Responsabilidade Social.
*Astúcia proposta por aqueles que concebem que cada um de nós só alcançará sucesso derrotando os oponentes, como num jogo de soma zero, no qual só os mais astutos sobrevivem. É preciso que muitos percam para que alguns vençam.  Princípio do Darwinismo Social.


Diagrama Paradigmas




Inteligência


Afeição ao Conhecimento


Coragem





Felicidade Sucesso

* Felicidade alcançar aquilo que sempre se desejou, um estado de bondade para consigo mesmo e para com os semelhantes. É sempre mais feliz o caráter filantrópico: - “aquele que dá é muito mais privilegiado do que aquele que recebe”.
* Sucesso alcançar aquilo que a sociedade valoriza, um estado de astúcia para com os concorrentes. Tem sempre sucesso o indivíduo de caráter mercantil, que a cada ação se pergunta: - “o que eu ganho com isso”?
O sucesso é sempre contínuo: do ponto a para b; de b para c; de c para d.., e assim sucessivamente. Quando se deixa de avançar o sucesso termina. Por isso, a astúcia para superar aqueles que disputam o sucesso se torna condição necessária.
As discussões entre os atributos de Bondade e Astúcia provocam inúmeras discussões éticas entre os adeptos da Teoria da Responsabilidade Social (paradigma humanista-radical) e os adeptos da Teoria da Maximização do Lucro dos Acionistas (paradigma construtivista-funcional).

Duas orientações básicas
Com base na dicotomia proporcionada pelos atributos de ASTÚCIA E BONDADE, na perspectiva do pragmatismo crítico proposto pelo educador norte americano John Dewey uma sociedade desenvolvida deve avaliar um determinado procedimento em termos de suas vantagens e desvantagens.

Quadro Interesse do acionista versus Responsabilidade Social
Doutrina da Responsabilidade Social
'As empresas são depositárias de recursos sociais


'As empresas existem com a autorização da sociedade


' As empresas tem a obrigação de agir segundo os interesses da soociedade Doutrina do Interesse do Acionista
' A responsabilidade primária da empresa é defender o interesse de seus acionistas.

' Defendendo o interesse do acionista, a empresa faz o que sabe fazer melhor e beneficia a sociedade pela produção de riquezas.

' Não cabe à empresa resolver problemas sociais que pertencem ao âmbito das organizações de caridade e do governo.

Eis aqui um instrutivo exemplo de concepção ética voltada para os aspectos predominantemente mentais (Doutrina do Interesse do Acionista – postura competitiva) e aspectos predominantemente do coração (Doutrina da Responsabilidade Social – postura colaborativa).

Um construto para a Filosofia da Administração
Um construto pode ser definido como um conjunto de variáveis escolhidas pelo analista como significativas para seu propósito para análise dos procedimentos considerados pertinentes.
Para analisar os vetores de competitividade das empresas, três tipos de variáveis são indispensáveis:
a. Variáveis Sistêmicas. Estão relacionadas ao ambiente macroeconômico: aspectos políticos, sociais, jurídicos, etc..
b. Variáveis Estruturais. Estão relacionadas ao mercado em que a empresa atua, isto é, a formação e estruturação da oferta e da procura e à sua regulamentação específica.
c. Variáveis internas. Estão relacionadas à ação da empresa, tais como a capacidade de gerenciar os negócios, as inovações, o controle dos processos, as informações disponíveis, a capacitação do pessoal, o relacionamento com o cliente, etc..
E, como a eficiência e eficácia são valores determinantes no universo da administração, a escolha dos cinco procedimentos contemplam essas variáveis:
Os cinco procedimentos
Primeiro procedimento - Investigar as exigências do contexto social;
Segundo procedimento – Relacionar o contexto social ao Processo de Produção do Conhecimento;
Terceiro procedimento – Acentuar o Enfoque analítico e crítico;
Quarto procedimento – Considerar o sucesso como validação da estratégia empregada.
Quinto procedimento – Sintonizar a ideologia do pensamento com o temperamento de seu autor


Interatividade entre os cinco procedimentos
No construto proposto o Processo de Produção do Conhecimento está intrinsecamente relacionado às Exigências do Contexto Social, tendo o Enfoque Analítico e Crítico a função de verificar continuamente a adequação do conhecimento proposto ao contexto, sendo que sua pertinência ou não,ocorre por meio de pesquisas que irão ou não confirmar determinado sucesso como validação da estratégia empregada. Evidentemente, essas soluções recebem influência do próprio Temperamento do Autor, isto é, as pessoas pertencentes ao mesmo contexto social podem propor soluções diferentes para os mesmos problemas em sintonia com as características dos seus respectivos temperamentos nos quais estão presentes: crenças valores, grau de conhecimento e atitudes que , subjetivamente, valorizam.
Assim, o Contexto Social em função de seu grau de desenvolvimento tecnológico, cultura dominante e relações sociais determinam A Produção do Conhecimento relativamente adequado às suas necessidades. Entretanto, o dinamismo dessa relação provoca diferentes enfoques críticos no sentido de reavaliar constantemente a eficácia dessa adequação, tendo como parâmetro a utilidade prática desses conteúdos para os membros da comunidade na qual esse mesmo conhecimento foi proposto. Esse conceito de útil, no tocante às ações que deverão ser tomadas, é passível de inúmeros questionamentos em decorrência do próprio temperamento do autor em questão.
O mesmo ocorre em relação ao Processo de produção do Conhecimento e o Enfoque Analítico e Crítico, visto que o reconhecimento do risco do erro e da ilusão é difícil porque o erro e a ilusão não se reconhecem em absoluto como tais, por isso, todo conhecimento deve ser decomposto e avaliado criticamente por mais abrangente que, a primeira vista, possa parecer, cuja aceitação ou não, no campo da administração, regra geral, leva em conta os seus resultados práticos.
Por sua vez, O sucesso como validação da estratégia empregada legitima a produção do conhecimento, se esse corresponder as exigências do contexto social no sentido de sua utilidade, quer dizer, a prática unifica esses conteúdos num conjunto maior ao tornar efetiva uma nova teoria. Sucesso esse que é sempre relativo por estar relacionado a uma situação competitiva.

Os filósofos do capitalismo
Os filósofos do capitalismo criaram uma nova estética em função de uma nova ética, e essa nova ética não necessariamente gera uma moral da intolerância, da violência e da maldade. Em assim sendo, então, a sociedade contemporânea produziu administradores que são novos e bons filósofos.
Embora o conhecimento filosófico esteja presente em todos os ramos da atividade humana, é surpreendente que os grandes pensadores do pensamento administrativo não sejam denominados filósofos, uma vez que enunciaram concepções de mundo assentadas em determinada forma de conduta.
Frederick Wislom Taylor (1856 – 1917) inspirador da Administração Científica, um pensador obstinado pelo trabalho eficiência e produtividade, criticou o laissez-faire do empirismo tradicional presentes nas empresas de então;
Henry Fayol (1841 – 1925) elaborou princípios básicos da Administração e a departamentalização com base nos organismos biológicos;
Mary Parker Follet (1868 – 1933) concebeu que somente a identificação com os impulsos sociais subjacentes pode fazer com que os executivos construam grandes organizações;
Elton Mayo (1880 – 1949) inspirador da Escola das Relações Humanas enfatizou a importância da motivação na busca da excelência empresarial.
Chester I. Barnard (1886 – 1961) escritor e presidente da New Jersey Bell, demonstrou a importância da persuasão retórica do líder para que grandes empreendimentos ocorram, através da teoria da aceitação da autoridade; propiciando uma importante contribuição à Escola Comportamental ao atualizar a Teoria das Relações Humanas ao afirmar que as pessoas formam organizações para realizar metas em comum, enfatizando que o esforço cooperativo era a chave para o sucesso organizacional e a eficácia administrativa.
W.Deming (1900 – 1993) estatístico norte-americano que procurou unir em um único sistema as visões das ciências exatas e das ciências humanas. Formulou e divulgou os princípios da Gestão da Qualidade, que contribuíram para a recuperação econômica do Japão e agora estão se tornando um novo paradigma para a administração no ocidente;
Peter Drucker (1909 – 2004) jornalista que elaborou teoricamente a necessidade da adaptabilidade das organizações modernas ao novo dinamismo social e tecnológico, denominado por ele Sociedade do Conhecimento. Na Sociedade do Conhecimento um modelo mental não deve ser um dogma, limitação e nem radicalmente pragmático, sendo necessário torná-lo orgânico, dinâmico e criativo.
William Henry Gates (Bill Gates) revolucionou a tecnologia da informática com a criação do Windows, impactando todos os sistemas de comunicação.
Com base nesses dados, o que causa estranheza é o não reconhecimento desses e tantos outros teóricos do pensamento administrativo na condição de filósofos.
Entretanto, o mesmo não ocorre com os pensadores assumidamente adversários do capitalismo. Socialistas utópicos como Saint-Simon, Fourier, Owen ou socialistas científicos como Marx, Engels, Gramsci, Althusser, Luckacs e outros são considerados dentro da história da filosofia, filósofos de primeira linha.
Os filósofos do capitalismo como Taylor, Fayol, Barnard; Mayo Follet, Deming, Drucker, Gates e outros, paradoxal e erroneamente desprezados pelos acadêmicos, uma vez que contribuíram decisivamente, cada um ao seu modo, para superação do falso conhecimento, incorporam-se legitimamente ao universo da filosofia da administração. Hoje em dia, depois de termos observado o lado negativo do progresso tecnológico em duas guerras mundiais e na proliferação de armamentos nucleares, as pessoas estão entendendo que, para viver bem se torna cada vez mais necessárias concepções de mundo adequadas à realidade circundante. Além disso, a emergência da nova competição econômica em escala mundial está obrigando as organizações a buscarem a compreensão dos fundamentos de seus negócios, dos mecanismos de cooperação, competição e produção, conduzem à um interesse renovado pela crítica filosófica ao pensamento dos empreendedores da história da administração, cuja contribuição para o desenvolvimento humano se torna inegável.
Assim, o livro Visão Filosófica da Administração esclarece que a inclusão da filosofia como disciplina básica e instrumental nos currículos dos cursos de administração se torna não apenas pertinente, mas sim, imprescindível para os futuros executivos. Afinal, nada do que é humano pode ser estranho à filosofia.
Livro: Visão Filosófica das Estratégias em Administração: Há Controvérsias e Conveniências. Roberto Bazanini. Editora Plêiade, 2007.

 
Outras Informações:
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